domingo, 18 de março de 2012

PELEJA DO CEGO ADERALDO COM ZÉ PRETINHO DO TUCUM






A peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, escrita por volta do ano de 1916, está entre os clássicos do cordel brasileiro. Apesar do preconceito, presente em toda narrativa, a obra ultrapassou esse limite, porque nela as pessoas veem que a cor da pele e a cegueira não são obstáculos para nenhum ser humano chegar aonde deseja. Todavia é necessário entender as circunstâncias em que a peleja foi concebida.
Não que justifique, mas na época, em que a obra foi escrita, o fim da escravidão ainda era recente na história do Brasil. Foram mais de três séculos de exploração servil, violência e assassinato. Várias gerações brancas oprimiram os negros, bem como milhões desses irmãos nasceram condenados a privação da liberdade. Daí porque, uma coisa entranhada por muitos séculos na cabeça das pessoas, aparece também na pena de Firmino.
Aos cegos também faltou apenas o trabalho forçado, mas quem tinha esta deficiência sempre foi condenado a viver trancado, vítima duas vezes, da cegueira e da indiferença. A sociedade, historicamente hipócrita, sempre lhe dispensou agressões, desrespeito e humilhações.
Por muito tempo atribuiu-se a autoria deste cordel ao próprio Cego Aderaldo, que nunca fez questão de desmenti-la. As duas personagens, tanto o Cego quanto o Zé Pretinho, são vítimas, dos mais nefastos preconceitos, um por conta da cegueira e o outro pelo fato de ser negro, respectivamente. Talvez o preconceito contido no texto fosse até inconsciente, porque enquanto o Cego não ganha a disputa, o negro é exaltado por todos os presentes na cantoria e Aderaldo, mesmo diz que para Zé Pretinho serviram um lauto jantar, a ele restou apenas um café e umas bolachinhas minguadas.
No início da cantoria o Cego Aderaldo começa a elogiar Zé Pretinho mas, este, se achando superior, por supostamente pensar que o cego está distante da cultura, como se a cegueira prejudicasse os outros sentidos, lhe ofende chamando de coxo, bruto, etc...
O guia de Aderaldo o alertou para que tomasse cuidado com o Zé Pretinho, talvez por isso, Firmino coloca na boca do Cego as seguintes palavras:

Então eu disse: — Seu Zé,
Sei que o senhor tem ciência —
Me parece que é dotado
Da Divina Providência!
Vamos saudar esse povo,
Com sua justa excelência!

Mas essas palavras elogiosas darão lugar a outras muito agressivas. Por isso, pesquisas mostram que perto do fim da vida, o cantador que usara rabeca, instrumento incomum na cantoria, teria pedido desculpas a comunidade negra, pelo seu cantar ofensivo. Todavia, se o Zé Pretinho tivesse existido, certamente, por uma questão de consciência moral, haveria de se redimir com os cegos, pelo seu tratamento rude.
O valor literário dessa obra é imensurável dada a sua capacidade de provocar reflexão em torno do preconceito. O professor pode usá-la na sala de aula no debate dessa chaga ainda presente em nossos dias. Avaliar a obra e não seu autor, é a prática coerente dos bons críticos, portanto se alguém disser que Firmino seja o que aparenta na peleja, pode cometer um erro. Questões a parte, este piauiense é considerado um dos grandes poetas do Brasil, a quem o cordel lhe rende homenagens.
A segunda história contida nesta publicação é a Peleja do Cego Aderaldo com Jaca Mole, este primo do Zé Pretinho. Como toda boa peleja segue na linha do desafio e demonstração de conhecimento de ambas as partes. Mais uma vez o Cego sai vitorioso.

Varneci Nascimento

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